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A década dos monólogos oníricos e das sombras assombradas

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 10.08.10

 

Anos 40, pois. Uma das décadas de cinema mais esquecidas e negligenciadas neste rio...

Coloco a navegar um Daphne du Maurier, pelo olhar de Hitchcock, Rebecca. Acreditam que já não me lembro o que vi primeiro? Se o filme, se o livro? Como ainda vejo dois filmes sobrepostos, parto do princípio que terei lido o livro primeiro. Mas posso desde já garantir que, ao filme, o vi ainda na televisão a preto e branco (o que não faria diferença porque o filme é mesmo a preto e branco).

 

O que que me hipnotizou desde logo no filme foi aquele monologo inicial, da Joane Fontaine, a descrever um sonho em que voltara a Manderley... A partir desse monólogo de voz sonhadora, já não pestanejei até ao the end.

Hitchcock sublinha aqui o lado sombrio, mesmo na parte inicial do filme que é a mais luminosa e descontraída. O homem encontra a rapariga simples e ingénua, dama de companhia de uma ricaça arrogante. Nada no seu encontro sugere intenções sórdidas. O homem percebe que encontrou alguém muito especial, e de certo modo protege-a da sua própria ingenuidade. A não ser naquele momento crucial, decisivo, em que lhe diz para escolher: continuar aquela vidinha cinzenta e servil ou acompanhá-lo.

Esta é uma personagem feminina desconcertante. A sua ingenuidade aproxima-a muito das crianças e coloca-a numa situação muito vulnerável. Fosse este homem um oportunista sem escrúpulos e a rapariga ficaria com dois problemas e a vida estragada. Mas não, este homem descobre nela o amor sem reservas, e mal quer acreditar, que o amor pode ser doce e genuíno, e a companhia de alguém leve e alegre. Para se perceber isso é preciso uma sensibilidade especial e este homem é sensível, além de reservado. Deixa-se tocar ao de leve por esta criaturinha infantil, deixa-se iluminar por ela, porque tudo a entusiasma e emociona!

Foi assim que a imaginei, vestidinho branco vaporoso, cabelo solto com caracóis, rosto muito branco, a sorrir-lhe, enquanto ele a guia por montes e vales nesse breve verão. Já não sei se é assim no filme, mas lembro-me da cena do hotel, nessa manhã em que ela rompe pelo seu quarto a contar-lhe que a ricaça tinha decidido partir, e nunca mais o veria, nunca mais! Esta cena é memorável, ele imperturbável a oferecer-lhe o pequeno-almoço e ela desesperada a imaginar despedidas tristes...

A atmosfera adensa-se, a partir da chegada dos dois a Manderley. A rapariga sente-se a intrusa naquela casa, sensação horrível. Apesar de tentar assumir o seu papel, há aquela sombra negra da governanta da casa. E a sombra da anterior dona da casa: Rebecca. Os filmes dos anos 40 adoram estas sombras e estes fantasmas... Respiram destas sombras e destes fantasmas, já repararam? Sombras e fantasmas que funcionam, aliás, muito bem em linguagem do cinema. Como se fossem da mesma natureza.

 

Até perto do fim, vivemos suspensos do desfecho. Chegámos a duvidar, como ela, que Maxim já não a amasse. Descobrimos, repentinamente que, para ele, ela é a única coisa real, genuína, verdadeira. Esta súbita declaração de amor é fortíssima no livro. Ele pensa que é tarde demais, que está tudo perdido, e nós também pensamos com eles, afinal o corpo de Rebecca apareceu naquele barco afundado. O seu fantasma tinha voltado para lhes assombrar a vida.Chegámos a duvidar, pois, e até ao fim, tal como eles, que Maxim se conseguisse libertar daquele pesadelo. E mesmo quando ele é ilibado, com o diagnóstico do médico que acompanhara Rebecca, ficamos com uma desagradável sensação. Ainda não era desta que os dois teriam sossego. Esse desconforto não nos larga, um pressentimento. Afinal, entrámos no filme e no livro, e agora acompanhamo-los de carro até Manderley.

Manderley que surge no horizonte, ao longe, em chamas.

Hitchcock acompanha a voz da Daphne du Maurier na perfeição. Mas acrescenta, à sua voz, a linguagem do cinema, as sombras, os planos, as tonalidades das vozes de cada personagem, os olhares, pormenores subtis...

E aquele monólogo inicial... reparem bem nessa voz sonhadora a sobrepor-se à aproximação da casa, entre folhagem e sombras, nesse regresso a Manderley...

Perfeito.

 

 

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publicado às 21:50


4 comentários

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De Pedro a 11.08.2010 às 20:43

É um dos meus filmes preferidos, assim como o livro já o era. Só o vi há relativamente pouco tempo, que não o conseguia encontrar cá à venda (mas felizmente já o há também)
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 11.08.2010 às 21:13

Que surpresa, Pedro, "ouvi-lo" neste rio!

É verdade!, já o livro é magnífico, mas o Hitchcock soube captar-lhe aquela atmosfera opressiva e angustiante. E com suspense até ao fim.
Ana
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De Anónimo a 03.09.2010 às 02:29

Ana,

Deste filme saiu recentemente uma cópia em DVD no mercado nacional. Infelizmente uma cópia muito pobre e de fraca qualidade.
Assim comprei de novo o “Rebecca” e revi o filme há bem pouco tempo. Uma coincidência ao ler este post.

Um filme que, na minha opinião, não sobreviveu bem ao tempo, ou “ao meu tempo” (uma forma mais piedosa para explicar o envelhecimento, e com o envelhecimento critérios de menor tolerância).

Nunca li o romance (Daphne du Maurier não entra na minha biblioteca),mas tanto quanto sei o herói Max de Winter (que nada tem de heróico) é mesmo o assassino da Rebecca na novela original.
Hitchcock nunca teve em grande conta este seu filme. Ao que parece ficou mesmo um pouco surpreendido com o sucesso do mesmo.

Mas há muito a sublimar nesta obra e mais ainda de subliminar.
Por exemplo a própria sexualidade duvidosa de Max de Winter. A obsessão da governanta Mrs Denvers pela falecida Rebecca (melhor representação no cinema de Judith Andersen).
E se de obsessões falamos,todo o filme é construído em torno de obsessões: a obsessão de Max em esquecer Rebecca, a obsessão de Denvers em lembrar Rebecca, a obsessão de Fontaine em agradar ao marido, a obsessão do público pela vida e morte de Rebecca. A obsessão de Hitchcock pelos objectos pessoais de Rebecca. A obsessão da própria Rebecca pelo detalhe e pelo requinte…

Um filme, ainda assim, brilhante que merece uma critica bem mais profunda.

Diogo
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 04.09.2010 às 15:11

Diogo
Já leu, da Daphne du Maurier, "O Outro Eu"? E um exercício de análise psicológica muito interessante, a meu ver...

Interessane a sua análse da "Rebecca": a obsessão. Não me apercebi disso na altura...

Quanto ao Max de Winte, há ali indefinições, conflitos... é verdade, mas a segunda mulher nada percebe... é tão jovem, tão crédula... por isso aquele par funciona, digamos assim, consegue organizar-se bem...
Ana

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